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O que responder quando dizem “você não parece autista”

Leitura de 2 min

Se você é autista e conta isso para alguém, é bem provável que já tenha ouvido: “Mas você não parece autista”. Às vezes vem como elogio. Às vezes vem com dúvida. Quase sempre deixa um incômodo difícil de explicar na hora.

Este texto é sobre esse incômodo e sobre o que dá para fazer com ele.

Por que essa frase machuca

Quem fala geralmente tem uma imagem única do que é ser autista, quase sempre tirada de filmes ou de um caso que conhece. Quando você não combina com essa imagem, a conclusão é que você “não parece”.

O problema é o que a frase carrega junto:

  • Que você talvez esteja exagerando, ou até inventando.
  • Que parecer menos autista seria melhor, como se fosse um elogio.
  • Que o esforço que você faz para se adaptar não existe. Muitas vezes você “não parece” justamente porque passou a vida aprendendo a disfarçar. Esse disfarce tem nome, masking, e cansa muito.

Por isso a frase pesa mais do que parece. Ela apaga uma parte de quem você é e todo o trabalho invisível que você faz.

Você não deve uma explicação a ninguém

Antes de qualquer resposta, vale lembrar: você não tem obrigação de provar que é autista. Nem de dar uma aula. Responder é uma escolha, e não responder também é.

Um critério simples ajuda a decidir: essa pessoa vai continuar na sua vida, e você tem energia agora? Se as duas respostas forem sim, pode valer explicar. Se alguma for não, encerrar é uma resposta completa.

Três jeitos de responder

1. Para explicar

Quando a pessoa parece curiosa de verdade e você está com disposição:

“O autismo não tem uma cara só. Muita coisa acontece por dentro, e eu aprendi a disfarçar bastante para dar conta do dia. Isso não quer dizer que seja fácil.”

2. Para pôr limite

Quando a frase veio com desconfiança ou como se fosse um elogio:

“Eu sei que você não disse por mal, mas essa frase me incomoda. Eu não preciso parecer nada para ser autista.”

3. Para encerrar

Quando você só quer seguir o seu dia:

“Pois é, sou autista. Mas me conta, e aquela viagem?”

Mudar de assunto não é fugir. É escolher onde gastar a sua energia.

E quando a frase vem da família

Com pessoas próximas, a mesma frase costuma doer mais, e a conversa costuma se repetir. Nesses casos, ajuda escolher um momento calmo, longe do comentário, para explicar uma vez com mais cuidado. Mandar um texto ou um vídeo que explique por você também vale. Você não precisa repetir a mesma defesa em todo almoço de domingo.

O que fica

A frase diz mais sobre a imagem que a pessoa tem do autismo do que sobre você. Você pode corrigir essa imagem quando quiser e quando puder. E pode, também, simplesmente não parecer nada além de quem você é.

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